Quando a Pauta 3 da AR Eletrônica foi aprovada por unanimidade no Comitê Gestor da ICP-Brasil em 24 de abril de 2026, o debate público até então girava em torno de teses, princípios e uma palavra muito repetida: "biometria". Faltavam números. Faltava saber, em chão de fábrica, quantos brasileiros estão de fato em alguma base biométrica governamental confiável o suficiente para destravar uma emissão remota de certificado digital sem agente humano nenhum no meio.
Foi exatamente nessa reunião que os números saíram da gaveta. O Diretor de Auditoria do ITI, Pedro Cardoso, e o presidente do ITI, Nilson Camolesi, dimensionaram pela primeira vez de forma pública e oficial o tamanho real de cada base biométrica aprovada — e a magnitude do mercado potencial que se abre.
Neste artigo, mapeamos cada um dos três grandes números oficiais das bases aprovadas (70 milhões + 20 milhões + 13 milhões), explicamos por que eles não somam linearmente (há sobreposição), mostramos por que mesmo com sobreposição o Brasil acabou de habilitar mais de 80 milhões de adultos a emitir certificado digital sem sair de casa — e contextualizamos por que os 51 milhões da CIN foram citados apenas como horizonte futuro, não como base aprovada.
Quantos brasileiros estão na base do DataValid (Senatran/CNH)?
O número oficial é de aproximadamente 70 milhões de pessoas individualizadas na base do Senatran/Renach — a base biométrica nacional dos motoristas brasileiros, alimentada pelas Carteiras Nacionais de Habilitação (CNH).
Esse é, de longe, o maior universo biométrico aprovado pela Pauta 3. E aqui aparece o ponto que praticamente todo o mercado vinha confundindo até abril de 2026: a base não pertence ao Serpro. O Serpro presta o serviço DataValid sobre a base do Senatran. A distinção é técnica, mas politicamente importante. Foi o conselheiro Célio Ribeiro quem fez a correção pública durante a reunião, e o número oficial veio na sequência da fala do Diretor de Auditoria.
"essa base biométrica que está disponível, ela deve ter ali próximo de 70 milhões de pessoas individualizadas nessa base. A base da ICP, do PSBio, é uma base que tem próximo de 20 milhões de pessoas individualizadas"
— Pedro Cardoso, Diretor de Auditoria do ITI, em reunião do Comitê Gestor da ICP-Brasil, 24/04/2026.
O número de 70 milhões representa pessoas individualizadas, não cadastros brutos. Isso significa que o trabalho de deduplicação já foi feito — uma mesma pessoa que tirou habilitação em estados diferentes, por exemplo, conta como uma só. É essa qualidade da base que viabiliza o batimento 1 para N exigido pela Pauta 3.
Para colocar em perspectiva: o Brasil tem cerca de 160 milhões de adultos. A base do Senatran sozinha, na configuração aprovada, alcança quase metade da população adulta brasileira. É a porta de entrada de massa da AR Eletrônica.
Quantos brasileiros estão no PSBio (base da ICP-Brasil)?
O número oficial é de aproximadamente 20 milhões de pessoas individualizadas no PSBio — a base biométrica própria da ICP-Brasil.
Olhando friamente, 20 milhões parece pouco diante dos 70 milhões da CNH. Mas o PSBio cumpre um papel distinto e indispensável na arquitetura aprovada pela Pauta 3: ele é a base sob governança 100% própria do ITI, deduplicada, com batimento 1 para N de altíssima qualidade, e usada como camada de checagem complementar obrigatória sobre QUALQUER outra base externa.
Isso significa que mesmo um cidadão validado pela CNH (DataValid) precisará passar também pelo PSBio. O PSBio funciona como o "checador final" da unicidade biométrica nacional dentro da própria infraestrutura de chaves públicas brasileira — uma garantia de que ninguém terá dois certificados digitais ativos vinculados a duas identidades diferentes ao mesmo tempo.
"para essas bases que não fazem um batimento 1 para N, ele possa ser utilizado desde que utilize... o nosso PSBio, que aí sim é uma base que tem abrangência nacional, que tem um batimento 1 para N"
— Pedro Cardoso, Diretor de Auditoria do ITI, em reunião do Comitê Gestor da ICP-Brasil, 24/04/2026.
Existe ainda outra dimensão estratégica: como o PSBio é alimentado a cada nova emissão de certificado digital validada presencialmente ou por videoconferência ao longo dos últimos anos, ele cresce de forma orgânica e qualificada. A cada nova emissão na ICP-Brasil, o PSBio fica um pouco maior — e mais útil para a próxima emissão.
Quantos brasileiros estão na base do passaporte (Polícia Federal)?
O número oficial é de aproximadamente 13 milhões de biometrias na base do passaporte, mantida pela Polícia Federal.
O número absoluto é o menor dos quatro, mas a qualidade é a mais alta. Quem solicita um passaporte passa por um processo de identificação extremamente rigoroso, com coleta biométrica controlada em ambiente da Polícia Federal. O Diretor de Auditoria foi enfático sobre isso:
"uma das bases biométricas, das melhores bases biométricas, se não a melhor que nós temos, é a base do... chama de base do passaporte, mas a base da Polícia Federal"
— Pedro Cardoso, Diretor de Auditoria do ITI, em reunião do Comitê Gestor da ICP-Brasil, 24/04/2026.
Há ainda uma sutileza importante: a base "do passaporte" não contém apenas biometrias de quem viaja. Ela inclui também estrangeiros residentes no Brasil e a população prisional — públicos que historicamente não tinham caminho prático para obter certificado digital. A AR Eletrônica, ao incorporar essa base, abre uma porta de inclusão digital pouco discutida.
O presidente do ITI dimensionou o impacto prático de forma direta:
"você poder aproximar um passaporte... O uso de um celular e gerar um certificado digital é transformador"
— Nilson Camolesi, Presidente do ITI, em reunião do Comitê Gestor da ICP-Brasil, 24/04/2026.
"para quem tem uma base de passaporte, que são 13 milhões de biometrias lá"
— Nilson Camolesi, Presidente do ITI, em reunião do Comitê Gestor da ICP-Brasil, 24/04/2026.
13 milhões de brasileiros que viajam ao exterior representam, em geral, o público de maior renda média e maior densidade econômica do país — exatamente o público que mais precisa de e-CPF e Selo Eletrônico para gerir empresas, contratos e obrigações fiscais. Não é coincidência que o ITI tenha incluído essa base na rodada inaugural da AR Eletrônica.
Quantos brasileiros estão na CIN (Carteira de Identidade Nacional)?
O número oficial divulgado pelo presidente do ITI é de aproximadamente 51 milhões de cidadãos cadastrados na CIN, com perspectiva de chegar a 52 milhões em curto prazo.
"Eu costumo dizer que se fôssemos uma Argentina, já teríamos identificado todos os brasileiros, numa base. Nós temos 51 milhões, indo para 52 milhões nessa base, um esforço enorme do governo Lula"
— Nilson Camolesi, Presidente do ITI, em reunião do Comitê Gestor da ICP-Brasil, 24/04/2026.
O detalhe crítico — e que merece um artigo próprio — é que a CIN ainda não está operacional como base de origem para a AR Eletrônica. O acesso técnico e jurídico do IPDIC (gestor da CIN) à infraestrutura ICP-Brasil ainda está em construção. As bases que destravam o lançamento são as três anteriores: CNH (70 mi), PSBio (20 mi) e passaporte (13 mi).
A CIN entra como horizonte de futuro próximo. Quando a CIN estiver universalizada — e o atual ritmo de cadastramento sugere que o esforço continuará — ela tende a se tornar a base de identidade oficial do brasileiro, absorvendo gradualmente o papel das outras três. Isso explica por que a Pauta 3 trata as bases CNH, PSBio e passaporte como uma transitoriedade, e não como configuração definitiva.
Como esses números evoluem? Qual o tamanho do mercado potencial?
É comum a primeira reação ser somar 70 + 20 + 13 + 51 e chegar em 154 milhões. Esse cálculo está errado, e por uma razão simples: as bases se sobrepõem fortemente.
Quem tem CIN provavelmente tem CNH. Quem tem passaporte quase certamente tem CNH. Quem já emitiu certificado digital nos últimos anos provavelmente está no PSBio. As bases não são conjuntos disjuntos — são círculos em um diagrama de Venn que se cruzam em diferentes graus.
Na prática, o que a Pauta 3 entrega é o seguinte: qualquer brasileiro adulto que esteja em pelo menos uma das três bases ativas (CNH, passaporte, PSBio) pode emitir certificado digital pela AR Eletrônica. A literatura técnica chama isso de cobertura por união de bases.
Estimativas conservadoras a partir da CNH (70 milhões) e passaporte (13 milhões), descontada a sobreposição quase total entre passaporte e CNH, somadas ao incremento marginal trazido pelo PSBio entre quem não dirige nem viaja, sugerem um universo elegível na faixa dos 75 a 85 milhões de brasileiros adultos — algo entre 47% e 53% da população adulta nacional.
Quando a CIN entrar no jogo, a cobertura tende a se aproximar dos 90% da população adulta. É por isso que Camolesi e o conselho falam abertamente em "universalização" do certificado digital como horizonte de médio prazo. Pela primeira vez na história, a infraestrutura técnica e a base biométrica estão alinhadas para isso.
Por que o Brasil vai universalizar a emissão de certificado digital?
Os números, sozinhos, não explicam o salto. O que explica é a combinação entre escala (80+ milhões elegíveis), conveniência (emissão remota a qualquer hora) e custo (eliminação do agente humano no fluxo). Os três vetores se reforçam: mais escala derruba custo unitário, custo menor expande público, público maior gera mais cadastros nas bases biométricas, mais cadastros expandem escala de novo.
Para Leandro Albertini, que atua com certificação digital ICP-Brasil desde 2016 e fundou o Selo Eletrônico, esses números marcam o ponto de virada que ele projeta há anos. Ele aposta que a próxima década vai fazer o certificado digital deixar de ser produto de prateleira para se tornar utilidade básica do cidadão brasileiro — algo equivalente, em difusão, ao que o PIX se tornou em quatro anos.
Albertini defende que a AR Eletrônica não é apenas uma nova modalidade de emissão; é o começo do fim da fricção entre o cidadão e a sua identidade digital. Quando 80 milhões de brasileiros podem emitir certificado em minutos pelo celular, o gargalo deixa de ser técnico e passa a ser de conhecimento e demanda. E é nesse cenário que o Grupo Meta ID já mantém o domínio areletronica.com.br preparado para operar.
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Conclusão
Empresas, contadores e profissionais que continuarem tratando o certificado digital como produto raro, caro ou complicado vão perder o bonde de uma maneira que ainda não conseguem dimensionar. Quando 80 milhões de brasileiros adultos passam a poder emitir e-CPF em minutos pelo celular, qualquer modelo de negócio baseado em escassez, agendamento ou fricção logística simplesmente desaparece — e quem ficou parado fica para trás.
Os números oficiais divulgados em 24 de abril de 2026 não são propaganda de governo. São o tamanho real de um mercado que acabou de ser aberto. Acompanhe as próximas atualizações do Selo Eletrônico para entender como o seu negócio se posiciona no novo ecossistema de identidade digital brasileiro.
Perguntas frequentes
Quantos brasileiros já estão elegíveis para emitir certificado digital pela AR Eletrônica?
Considerando as bases biométricas oficialmente aprovadas em 24 de abril de 2026, são cerca de 70 milhões na base do Senatran (CNH), 20 milhões no PSBio da própria ICP-Brasil e 13 milhões na base do passaporte da Polícia Federal. Há sobreposição entre as bases, mas o universo elegível supera 80 milhões de brasileiros adultos.
Por que o PSBio (20 milhões) é tão estratégico mesmo sendo menor que outras bases?
O PSBio é a única base 100% sob governança da ICP-Brasil, deduplicada e com batimento 1 para N. Por isso a Pauta 3 exige que toda emissão pela AR Eletrônica passe pelo PSBio em complemento às bases governamentais externas, garantindo unicidade biométrica nacional.
A CIN (Carteira de Identidade Nacional) já pode ser usada para emitir certificado digital?
Ainda não para a AR Eletrônica em produção. A CIN está em 51 milhões de cidadãos cadastrados (caminhando para 52 milhões), mas o acesso operacional do IPDIC (gestor da CIN) à ICP-Brasil é tratado como transição: as bases atuais (CNH, PSBio, passaporte) cobrem o lançamento, e a CIN deve assumir centralidade quando estiver universalizada.
O que é batimento 1 para N e por que ele importa?
Batimento 1 para N é a capacidade de comparar uma biometria coletada agora com TODA a base, descobrindo se aquela mesma face já foi cadastrada em outro nome (deduplicação). É o mecanismo que impede que um fraudador use uma identidade fictícia se aproveitando de um nome real, e é o requisito de ouro definido pela Pauta 3 para qualquer base usada na AR Eletrônica.
